Observações de uma paulistana

O Rio de Janeiro continua sendo...

 

 

A cidade maravilhosa não existe na rodoviária. Ou melhor, a rodoviária não faz parte dela, nem daria samba, talvez um rap barra pesada. O Rio de Janeiro das revistas só começa no Flamengo de torcedores fluminenses, onde é possível avistar o mar e o castelinho verde da Guanabara, onde os prédios são art dèco e as madames desfilam com seus cachorros.

            Copacabana que me perdoe, mas Ipanema tem mais dilemas entre seus prédios. Sim, parece a novela das 8, antes mesmo de chegar ao Leblon, tem grifes e boutiques em cada esquina, uma linha fina entre a plasticidade e a pateticidade de quem ainda não se encontrou.

            O taxista comenta que novos prédios estão proibidos de serem construídos, pois impedem a passagem das correntes de ar, sufocando a cidade e principalmente, os morros que se escondem atrás do 12º andar. Mas, quem quer vê-los, não é mesmo?

            A Rua Vinícius de Moraes guarda uma loja de música, uma padaria bem quista, diversos bares e agentes do jogo do bicho. Tem um albergue também, em uma casa amarela que abriga gringos e raros brasileiros. Não há poemas transcritos na calçada. Predomina a cerveja sobre o wiski. Não ouvi uma bossa se quer, a não ser no jeito de andar das garotas de Ipanema.

            Na praia há um desfile constante de homens, mulheres e vacas falsamente malhadas, digo, as da Cow Parade. O famoso biscoito Globo compete com lanches naturais, açaí, milho verde, mate leão e guaraná. O mar gelado não convida para um abraço, mas o calor de 30º tende a nos jogar para as ondas fortes, quebrando e levando parte dos biquínis.

            O metrô carioca parece o trem paulistano, mais lento e gordo, fala inglês e português e não estranharia se ele aprendesse francês daqui a alguns anos. Chico Buarque está nos azulejos da estação ao som de música clássica. A arte se destaca por entre os vagões.

            O lado bonito do centro tem teatros e cinemas, bares que desbancam os de Ipanema, pipoca doce sem corante, gatos, muitos gatos e em alguns instantes, o Brasil que fomos.

            Perto da estação do bondinho está o inovador prédio da Petrobrás, que enquadra nuvens e as reflete, tenta inutilmente ser parte do céu, ah! Que bobagem!

            O bondinho é motivo de riso a primeira vista e um aumento significativo da adrenalina, os visitantes seguram firme nos bancos de madeira, enquanto os nativos brincam dependurados, rindo do nosso acanhado medo. Acelera e freia, subindo o mais belo ponto do Rio, o Morro de Santa Teresa, nos presenteia com seus belos meninos de lábios fartos, assim como a cabeleira, e com as meninas de saias, curtas e coloridas.

         Santa Teresa, ao contrário dos seus primos pobres, tem ruas largas, casarões antigos, pedras nas paredes e caminhos e o samba como hino maior. Lá ainda é possível bebericar uma cachaça artesanal e água no filtro de barro. Lá é possível ouvir um choro de amor machucado e sentir-se amplamente tocado. Lá as senhoras ainda esbanjam elegância indiscreta e os senhores guardam o segredo daquelas antigas serestas em um chapéu panamá. E o Rio noturno torna-se bem menos obscuro do que no Jornal Nacional.